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A russa do Maneco

Luis Fernando Verissimo

Todos ficaram muito intrigados quando o Maneco, logo o Maneco, apareceu com uma russa. Em pouco tempo “a russa do Maneco” se tornou o assunto principal da turma. Todas as conversas, cedo ou tarde, acabavam na frase “E a russa do Maneco?” e daí em diante não se falava em outro coisa. E, claro, quando o Maneco e a russa estavam com a turma, a russa era o centro de todas as atenções. Os homens de boca aberta, as mulheres tentando ser simpáticas, mas odiando a russa.

Porque a russa do Maneco era linda como só as russas conseguem ser. Olhos claros e puxados, maçãs do rosto altas, um lábio inferior cheio e um pouco mais saliente do que o de cima, pele branca como as estepes, cabelos loiros como trigais da Georgia, ou onde quer que nasça muito trigo por la. E o corpo, o corpo...

- Bailarina – sentenciou uma das mulheres, como se acusasse a russa de competição desleal.

Bailarina, sim, mas bailarina de um tipo especial: com anca e peito. Pernas longas. Mais alta do que o Maneco. Quando o Maneco a abraçava ela beijava o topo da sua cabeça. (Os homens suspiravam, as mulheres se revoltavam.) E a russa só sabia uma palavra em português, além de “bom dia” e “obrigado”.

- Manequinho.

Muitos da turma não conseguiam dormir, pensando no Maneco com a loira na cama, e no “Manequinho” dito com aquele sotaque russo. Logo o Maneco.

flor

O Maneco não explicava onde e como encontrara a sua russa. Só dizia, misteriosamente:

- A coisa mais fácil de conseguir, hoje, na Rússia, é plutônio e mulher.

Dando a entender que, além de uma mulher espetacular, também estaria envolvido com o tráfico clandestino de material radioativo. As duas principais sobras da derrocada do império soviético. O que deixava a turma ainda mais intrigada.

- Vem cá: o Maneco não é funcionário público?

Era. E, que se soubesse, nunca saíra do Brasil. Mas as pessoas, afinal, podem ter suas vidas secretas. E numa das suas vidas secretas, o Maneco encontrara a sua russa. Talvez negociando plutônio enriquecido para revender a algum grupo terrorista internacional. Depois de verem a russa beijando o topo da sua cabeça, ninguém duvidava de mais nada a respeito do Maneco. Se ouvissem dizer que o Maneco estava sendo caçado pela Interpol, ou que seria o novo marido da Nicole Kidman, ou as duas coisas, não duvidariam.

E especulações sobre que outras coisas o Maneco era e fazia que ninguém sabia passaram a dominar a conversa do grupo – sempre que o assunto não era a russa.

flor

E um dia o Maneco apareceu sem a russa. Arrá, pensaram todos. A russa finalmente se deu conta de quem o Maneco realmente é. Qualquer que fosse a mentira que o Maneco usara para conquista-la, estava desmascarada. A russa deixara o Maneco, as coisas voltavam aos seus lugares. O mundo voltava à normalidade. Estava restabelecida a lógica, segundo a qual uma russa daquelas não podia ser de um Maneco daqueles. Que fim levara a russa?

- Olha – disse o Maneco – russa não é fácil, viu?

Repetiu:

- Russa não é fácil!

E contou que as russas eram possessivas e ciumentas, e atrasadas, pois não admitiam que um homem podia ter duas ou três namoradas ao mesmo tempo e ...

Naquele momento gritaram do bar que havia um telefonema, uma mulher chorosa querendo falar com o “Manequinho”, e o Maneco começou a fazer sinais frenéticos e a dizer: “Diz que eu não estou, diz que eu não estou”.

Sensação na turma. O Maneco é que deixara a russa! E se com a russa o Maneco já era o assunto preferido da turma, sem a russa passou a ídolo.


Domingo, 3 de novembro de 2002.



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